Doutoramento em Criação Artística
UA – Univesidade de Aveiro
AO REDOR, ENTRE E ALÉM
Bruxelas 2025
Quarta performance exploratória, pensando e criando a “Estufa Social”, um organismo artístico, simbólico feito de plástico e sensibilidade, onde se tensionam ideias de aprisionamento, sufocamento, descartes e sobrevivência em ambientes artificiais, ambientes que repetem cartilhas opressoras que excluem, violentam e determinam quem pode existir ou não. O plástico, aqui, deixa de ser apenas material: ele se torna método/linguagem, metáfora de forças que nos comprimem e isolam.
Neste gesto performativo que nasce da inquietação e do desconforto de viver numa sociedade racista, LGBTfóbica, machista, classista e +, também nasce do ferimento, do devaneio artístico libertador e vivo, poético, da intimidade trágica que a arte provoca, da descolonização da cartilha hegemônica – estrutura dominante. No coração da minha pesquisa de doutorado em Criação Artística — Universidade de Aveiro — eu sei que existo e me modifico com todos os confrontos, incertezas, certezas e descobertas de uma pesquisa prática.
A performance AO REDOR, ENTRE E ALÉM compõe parte desse percurso de pesquisa em criação artística, gerando e propondo confronto e reflexão, coexistindo em estado vivo com corpo, material plástico e opressão sistêmica, questionando o sistema pelas vias da arte transdisciplinar e da experimentação.
A performance realizada em Bruxelas, teve apoio da Tango Factory e da La Veine, essa travessia uma vez mais, diferente em tudo, até daquilo que minhas inquietações alertavam. Ativei mais um capítulo estético e transformador dessa investigação performativa/sensorial-crítica, que descasca outras vias práticas, possibilitando que eu possa existir genuinamente dentro de um tempo performático, abrindo diálogos entre corpo, plástico, sociedade e opressão sistêmica, pensando até onde o plástico — opressão sistêmica — nos cerca, nos limita, como também até onde podemos atravessá-lo.
O NOME DO CORPO PLASTIFICADO
Barcelona 2025
O Nome do Corpo Plastificado parte do gesto de desaparecer para existir, orientando a investigação do plástico como metáfora da opressão sistêmica. A performance evidencia como corpos racializados, femininos, LGBTQIAPN+ e outros corpos não normativos e dissidentes tendem a não aparecer enquanto corpos humanos reais, sendo historicamente invisibilizados, descartados ou tolerados apenas quando servem aos interesses da estrutura dominante. Paradoxalmente, um corpo plastificado — sem identidade, sem traços reconhecíveis, instável e desumanizado — torna-se mais visível do que esses corpos em sua existência concreta. Ao assumir o desaparecimento como estratégia estética, o trabalho revela a violência de um sistema que exige a anulação da humanidade como condição de visibilidade.
OPRESSÃO EM ESCULTURA
Foz do Arelho 2024
Opressão em Escultura nasce do instante em que compreendo que aquilo que vivi como condição “normal” era, na verdade, a operação silenciosa do racismo, do patriarcado, do machismo, da LGBTQIA+fobia e do classismo moldando a vida. Durante muito tempo, observei esculturas e monumentos sem reconhecer a violência inscrita neles — figuras celebradas, lembradas e erguidas como memória oficial — sem perceber que seus gestos, poses e pedestais carregam histórias de dominação, colonização, massacre e exclusão.
Essas esculturas não apenas representam o poder: elas o estabilizam no tempo. Permanecem como marcas duráveis que moldam nosso olhar, afetam nossa sensibilidade e naturalizam hierarquias, fazendo com que certos corpos aprendam a existir sempre a partir de uma posição de inferioridade. Funcionam como selos cotidianos da opressão sistêmica, lembrando que a estrutura que as criou não desapareceu — apenas se reorganizou.
No encontro entre corpo, vento e plástico, tento moldar o material, mas sou eu quem se desgasta. O plástico — metáfora da opressão sistêmica — transforma-se sem jamais ceder, revelando como essas estruturas permanecem dominantes, se reescrevem e retornam sob novas formas de controle, cada vez mais organizadas, legitimadas e difíceis de desmontar. Assim como as esculturas que atravessam gerações, a O.S. insiste em se fazer eterna, ocupando o espaço público, o imaginário coletivo e os corpos que ela insiste em moldar.
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