{"id":3650,"date":"2026-06-09T22:36:36","date_gmt":"2026-06-09T20:36:36","guid":{"rendered":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/?p=3650"},"modified":"2026-08-04T20:33:27","modified_gmt":"2026-08-04T18:33:27","slug":"o-dono-da-cidade-ligou-para-deus-j-foi-ao-supermercado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/fr\/o-dono-da-cidade-ligou-para-deus-j-foi-ao-supermercado\/","title":{"rendered":"Le propri\u00e9taire de la ville a appel\u00e9 Dieu, J. est all\u00e9 au supermarch\u00e9"},"content":{"rendered":"<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"3650\" class=\"elementor elementor-3650\" data-elementor-post-type=\"post\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-3e8109f3 e-flex e-con-boxed wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no wpr-column-slider-no wpr-equal-height-no e-con e-parent\" data-id=\"3e8109f3\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-8ca76c2 foto-conto elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"8ca76c2\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figure style=\"text-align: center; margin: 30px auto 40px auto;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"225\" height=\"300\" class=\"wp-image-3545\" style=\"width: 500px; max-width: 90%; height: auto; display: block; margin: 0 auto;\" src=\"https:\/\/joaofabiocabral.com\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/blog-fabio-foto-225x300.jpeg\" alt=\"Fotografia de Jo\u00e3o F\u00e1bio Cabral\" srcset=\"https:\/\/joaofabiocabral.com\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/blog-fabio-foto-225x300.jpeg 225w, https:\/\/joaofabiocabral.com\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/blog-fabio-foto-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/joaofabiocabral.com\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/blog-fabio-foto-1152x1536.jpeg 1152w, https:\/\/joaofabiocabral.com\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/blog-fabio-foto.jpeg 1200w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/>\n<figcaption style=\"font-size: 12px; font-style: italic; color: #666; margin-top: 8px;\">Fotografia: Jo\u00e3o F\u00e1bio Cabral<\/figcaption>\n<\/figure>\n<p>Arrastando as sobras do que restou do mundo, J. parou justamente na hora de pagar os itens que havia comprado.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Minutos antes, entre a fraqueza produzida pela desidrata\u00e7\u00e3o da noite anterior, J. imaginou, ou talvez tenha realmente visto, uma mulher se preparando para o baile sens\u00edvel na Rambla del Raval.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>J. n\u00e3o sabia onde estava. Um lapso de percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o normativa havia se apoderado da sua cabe\u00e7a. J. costumava inventar alegria em festas tristes.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Enquanto isso&#8230;<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Noutro ponto do universo, a Rambla del Raval.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Ela a atravessava em passos lentos, entre aquela secura e a desordem das l\u00e1grimas. Uma fome maior. Um colo maior. Uma vergonha imensa. Abre aquela porta plastificada e percebe o ar sangrando. Tanta l\u00e1stima.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Tantas respostas nunca dadas.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Olhando de cima do c\u00e9u, percebe um ser buscando aquilo que j\u00e1 n\u00e3o existe. Carregando sombra, solid\u00e3o, o saco vazio de alimento.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Algu\u00e9m deve existir noutro lugar.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Outro lugar.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Um grito ecoou.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Outro.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Mais outro.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A mem\u00f3ria \u00e9 um animal faminto, pensou ela.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Desconstru\u00e7\u00e3o da primeira lembran\u00e7a.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Dor.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>J. saiu de casa num s\u00e1bado \u00e0 tarde. Estava um pouco de ressaca. Na noite anterior havia caminhado pelas ruas. J. se perguntava o que estava acontecendo com seus calos. Lembrava da terra. Lembrava at\u00e9 da inf\u00e2ncia. Acabou na casa de uma amiga trans, que J. adora.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>E ent\u00e3o ajudou na limpeza da casa. Na retirada do rato morto. Na sele\u00e7\u00e3o de calcinhas, c\u00edlios posti\u00e7os e sapatos sem par.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Antes passou pelo supermercado e comprou quatro garrafas de isot\u00f4nico, Aquarius Zero Adi\u00e7\u00e3o de A\u00e7\u00facar. A amiga adora beber durante suas noites de festa aquele l\u00edquido com soro e vitamina C.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Eu entendo.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Algumas festas nunca acabam.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>J. tem um amigo que vive em festa desde que nasceu.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m compreendo a rave eterna dele.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Depois, J. e ela ficaram conversando sobre os espa\u00e7os dedicados aos corpos marginalizados, a filosofia, os amores que desgastam, e sobre o ex-companheiro de apartamento dela, que morou ali durante treze dias e que, certo dia, decidiu brigar num bar, brigar dentro da casa dela e ainda quebrar a pia.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Coisas que s\u00f3 acontecem no Raval?<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>N\u00e3o.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Acontecem tamb\u00e9m em Poblenou, Barceloneta, Eixample e em qualquer lugar onde existam pessoas.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Entre uma cerveja e outra, algumas gargalhadas, a amiga decidiu jogar algumas coisas no lixo, e J., claro, ajudou com todo o amor e com todas as dores lombares que se arrastam h\u00e1 mais de um s\u00e9culo. J. sempre lida com elas com a valentia e o otimismo de uma cebola roxa.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>O rato morto, a amiga de J. colocou dentro de um vidro. Segundo ela, seria mais uma prova das condi\u00e7\u00f5es do lugar. Querem que ela saia dali. Parece que n\u00e3o \u00e9 muito querida pelo s\u00edndico do pr\u00e9dio. Um idiota, claro.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>N\u00e3o gostar da amiga de J. \u00e9 como n\u00e3o gostar do amor.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Mas h\u00e1 quem n\u00e3o goste.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>O bom \u00e9 que ela assegurou o rato morto dentro do vidro e agora vai fazer o que considera importante. E evita que possa fugir espiritualmente, como \u00e9 \u00f3bvio.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>J. saiu de l\u00e1 feliz. A amiga acompanhou J. at\u00e9 em casa. Era uma madrugada de primavera com um tempo fenomenal.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>No momento em que sa\u00edram do edif\u00edcio da amiga, outras pessoas deixavam uma festa quase em frente, na esquina. Oito jovens surgiram aos beijos, abra\u00e7os e dedos felizes. Ficaram paradas no meio da rua naquela cena t\u00edpica de para\u00edso. Ningu\u00e9m era de ningu\u00e9m e todo mundo junto faz bem. Para quem est\u00e1 e para quem olha.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>J. adora observar essas manifesta\u00e7\u00f5es de liberdade. As jovens estavam ali para isso. Para a saliva que tudo cura.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A amiga de J. pegou-lhe pelo bra\u00e7o, deu uma risada t\u00edpica de quem quer comprar um colch\u00e3o novo e sa\u00edram dali falando de como as pessoas bebem sem destino.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Caminharam pelas ruas como se flutuassem.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Pessoas transitavam pelos caminhos do Raval. As janelas apagavam suas \u00faltimas luzes da noite. A vizinha de cima do apartamento de J. parecia alegre, falava alto e certamente estava a dan\u00e7ar \u00e0s tr\u00eas horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Seus barulhos femininos eram de quem certamente dan\u00e7ava.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>J. n\u00e3o sabe o nome dela, e \u00e9 prov\u00e1vel que ela n\u00e3o saiba da exist\u00eancia de J., nem do nome de J.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u00c9 assim que as coisas acontecem depois das tr\u00eas da manh\u00e3.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Mas hoje \u00e9 s\u00e1bado e J. resolveu ir ao mercado.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 a mulher do baile sens\u00edvel. Lembra?<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>J. para.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Ela esbo\u00e7a uma dan\u00e7a sobre o luto, sobre a saudade; sabia que o fim n\u00e3o existia. No meio da Rambla del Raval, diante daquela aridez humana, sem nada al\u00e9m da secura das aus\u00eancias, inicia o ritual da opress\u00e3o, da d\u00favida e da volta.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Cortou far\u00f3is, l\u00e2minas nos pensamentos, e uma parte do seu cora\u00e7\u00e3o saiu do corpo para performar o protesto sobre existir sem invas\u00f5es. Com seus p\u00e9s, suas pernas e seus bra\u00e7os, o corpo dela, sobre o ch\u00e3o da cidade, confundia-se com o p\u00f3len que ca\u00eda das \u00e1rvores da Rambla. Uma poeira sagrada evocando outro sentido do mundo metralhado ficou suspensa, em sil\u00eancio, como se tudo tivesse congelado, est\u00e1tico.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A mulher do baile sens\u00edvel embaralhou os olhos de J.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Alguns passos depois, J., que n\u00e3o perdia tempo pensando onde dormem as pombas da pra\u00e7a, chegou ao supermercado.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>J. estava muito bem. Queria preparar uma salada, comer peito de frango e ser outra pessoa durante aquele fim de semana. J. tinha na cabe\u00e7a que qualquer coisa poderia acontecer. Estava sens\u00edvel. Estava mesmo. J. gostava por demais de festas populares, de sino de igreja, vermute e tapioca brasileira. Pensou at\u00e9 que precisava beijar uma boca ou receber abra\u00e7os com mais delicadeza.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Creio que J. queria mesmo era comprar sorvetes, algumas latas de cerveja e voltar para casa. Mas comprou comida saud\u00e1vel e ficou observando, da fila, o desenrolar daquele homem grisalho que n\u00e3o se movia.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A mo\u00e7a do caixa falou o valor, e nada.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>O homem permanecia ap\u00e1tico, desaparecendo pelos olhos.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Um vel\u00f3rio acontecia do outro lado da rua.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>As imagens da televis\u00e3o denunciavam os inocentes massacrados.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Os telefones enviavam mensagens aterradoras.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Podia ser apenas arte, mas n\u00e3o era.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>N\u00e3o era um filme, nem um poema quebrado, nem uma atriz rasgando os ouvidos do mundo.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u2014 Senhor, \u00e9 poss\u00edvel pagar com cart\u00e3o de cr\u00e9dito. Senhor, preciso que o senhor pague. H\u00e1 pessoas esperando&#8230;<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>As vozes alteradas da fila j\u00e1 manifestavam necessidades de tempo. Algu\u00e9m precisava voltar r\u00e1pido para casa, preparar o almo\u00e7o, lavar a roupa, assistir ao notici\u00e1rio da televis\u00e3o, regar as plantas da varanda, visitar uma vizinha doente, comparecer a um casamento.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Coisas demais estavam acontecendo no mundo e aquele homem continuava im\u00f3vel diante da caixa registradora.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u2014 Chamem o gerente, o vigilante do zool\u00f3gico, chamem algu\u00e9m. Ele precisa se mover.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u2014 Tire a roupa, tire a roupa! Camisa, cal\u00e7a, camisa, roupa \u00edntima, calcinha ou cueca, ou nada, se n\u00e3o estiver usando nada. Tire tudo! \u2014 disse uma velhinha vendedora de pastilhas para o desejo de existir.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u2014 Abram a boca dele, coloquem uma l\u00e1 dentro. Funciona. Acreditem.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Um rapaz branco que segurava uma bandeja de ovos come\u00e7ou a ficar furioso. Essas coisas de gente ofendida. A omelete que ele pretendia fazer era muito mais importante e ele protestava com uma f\u00faria quase carnavalesca, convencido de conhecer todos os conceitos universais. Havia recebido uma boa educa\u00e7\u00e3o, estudado em grandes escolas e universidades e inclusive havia passado uma temporada estudando fora da Terra.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Sim.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Morou alguns anos em J\u00fapiter.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Tem por l\u00e1 uma pequena casa de f\u00e9rias.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Um ser simp\u00e1tico, emp\u00e1tico e gal\u00e1ctico.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Era muito bem fundamentado. Nunca precisou comprar um l\u00e1pis nem uma borracha. E precisava preparar aquela omelete antes do meio-dia.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Aquilo estava destruindo sua vida.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Ligou para o pai.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>O pai ligou para a m\u00e3e.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A m\u00e3e ligou para o dono da cidade.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>O dono da cidade ligou para Deus.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>E Deus, o que fez?<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Nada.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Deus estava noutra. Percebeu que as pessoas andavam empenhadas em pagar tudo, at\u00e9 o pr\u00f3prio enforcamento.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Deus \u00e9 muito esperto.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u2014 Senhor, diga-me alguma coisa&#8230;<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Uma ambul\u00e2ncia parou em frente ao pequeno com\u00e9rcio. O som da sirene era insuport\u00e1vel. Uma jovem passou em frente ao estabelecimento levando sua marmita para a universidade; gritava que n\u00e3o queria se molhar, e chovia no campus.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o quero me molhar, n\u00e3o quero!<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Os professores lan\u00e7avam exerc\u00edcios em sala e os estudantes continuavam buscando a beleza morta na arte e rezando para o Deus morto da filosofia. Havia mitos, poesias, uma aluna nova, e nada.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>D\u00favidas de quem paga para existir.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u2014 Senhor, infelizmente vou atender algumas pessoas antes do senhor. \u00c9 imposs\u00edvel trabalhar assim.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Ele n\u00e3o estava preocupado.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>N\u00e3o tinha outra forma de existir.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>As prateleiras come\u00e7aram a cair.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>As melancias criaram pernas e saltavam pelos corredores cheios de estantes derrubadas.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Os espinafres cantavam m\u00fasica popular brasileira.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Os atores publicavam mais um apelo nas redes em busca de novos personagens.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Todas as pessoas sa\u00edram cantando algum hino qualquer do pequeno com\u00e9rcio.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>N\u00e3o pagaram nada do que levaram.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>O local ficou vazio.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>O homem continuou im\u00f3vel, observando o sil\u00eancio.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Nas ruas, manifesta\u00e7\u00f5es exigiam o fim da alegria.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A cidade inteira estava fora de casa.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Os gatos gargalhavam das janelas.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Tudo estava perfeito dentro da ordem estabelecida.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Na Rambla del Raval, a mulher dan\u00e7ava em explos\u00e3o com seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>O sublime havia sido alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Impec\u00e1vel.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Um avi\u00e3o cruzou o c\u00e9u sem destino certo.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Uma faixa.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Mais faixas.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A mulher da Rambla dan\u00e7ava com seu cora\u00e7\u00e3o feminino.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>E J. largou tudo o que queria comprar ali, no ch\u00e3o, e saiu do supermercado&#8230;<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Amanh\u00e3 eu conto mais&#8230;<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 JFC &#8211; BARCELONA &#8211; 2026<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria \u00e9 um animal faminto. Uma mulher dan\u00e7a sobre o luto. Um homem permanece im\u00f3vel diante da caixa registradora. O dono da cidade liga para Deus. J. foi ao supermercado.<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":3545,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[30],"tags":[],"class_list":["post-3650","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-barcelona-ficcion"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3650","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3650"}],"version-history":[{"count":43,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3650\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4058,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3650\/revisions\/4058"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3545"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}