{"id":4003,"date":"2026-08-03T17:41:08","date_gmt":"2026-08-03T15:41:08","guid":{"rendered":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/?p=4003"},"modified":"2026-08-03T17:46:21","modified_gmt":"2026-08-03T15:46:21","slug":"a-primavera-causa-alergia-causa-mesmo-pergunte-a-quem-voce-abraca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/ca\/a-primavera-causa-alergia-causa-mesmo-pergunte-a-quem-voce-abraca\/","title":{"rendered":"A primavera causa alergia, causa mesmo, pergunte a quem voc\u00ea abra\u00e7a."},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/joaofabiocabral.com\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6997-1-768x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4005\" style=\"aspect-ratio:0.7500227998176014;width:355px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/joaofabiocabral.com\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6997-1-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/joaofabiocabral.com\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6997-1-225x300.jpeg 225w, https:\/\/joaofabiocabral.com\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6997-1-9x12.jpeg 9w, https:\/\/joaofabiocabral.com\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_6997-1.jpeg 960w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Jo\u00e3o F\u00e1bio Cabral<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\" style=\"line-height:1.8\"><p style=\"line-height: 1.8;\">Dias que passam bem despercebidos, entre sair de casa e chegar ao gin\u00e1sio, J. despertou \u00e0s sete e meia da manh\u00e3, tomou um ch\u00e1 verde, pensou que sentido tinha isso tudo, suas dores lombares estavam um show underground de rock, J. se olhou no espelho depois de limpar os dentes, fez uma careta carinhosa, safadinha, para si e saiu&#8230;<\/p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao virar a esquina, J. se depara com um homem carregando uma trouxa nas costas, um sujeito de mais ou menos 40 anos que falava sem parar e para algu\u00e9m que s\u00f3 ele via, e, num gesto repetitivo com a m\u00e3o e a cabe\u00e7a, contorcia o t\u00f3rax e dizia:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Dias que passam despercebidos, despercebidos, os dias passam despercebidos, veja o que voc\u00ea tem nos olhos, nos p\u00e9s, nas palmas das suas m\u00e3os, me diga, o que voc\u00ea tem no seu cora\u00e7\u00e3o, azeite de oliva ou trag\u00e9dia?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. desviou o olhar, mas n\u00e3o os ouvidos, caminhou intacto por fora, seu est\u00f4mago revirava em busca de respostas e solu\u00e7\u00f5es para a pergunta do homem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rua exalava o cheiro t\u00edpico das manh\u00e3s do Raval, a loja de bicicletas na rua debaixo da casa de J. estava abrindo as portas. O que poderia ser melhor acontecer antes do meio-dia? Pensou J., recebendo imagens de corpos que atravessam sua dire\u00e7\u00e3o, seus olhares, e tudo vira um misto de pena, impot\u00eancia, admira\u00e7\u00e3o e desejo. Corpos atravessam seu cotidiano diariamente. Observe-os, corpos vivem, ainda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um barulho de sirene ecoou pr\u00f3ximo dali, pessoas existem, ainda, por todos os lugares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primavera causa alergia, causa mesmo, pergunte a quem voc\u00ea abra\u00e7a. A primavera tem cores, mas causa alergia, e o ver\u00e3o chega t\u00e3o r\u00e1pido, que beijos J. escolheria hoje?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sino da igreja alertava sobre o hor\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Blem Blum&#8230; blem&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. saiu de casa com simplicidade, poderia ter pensado em unhas pintadas, croissant de chocolate, mas, naquela hora, o que restava eram resqu\u00edcios de dan\u00e7a, de noite, de roupas esquecidas pelo asfalto, resqu\u00edcios de um gozo humano entre humanas que aconteceu. Acontece todos os dias e a qualquer momento, um gozo que s\u00f3 corpos bem treinados sabem receber e dar, e ali, na esquina seguinte, J. se deparou com um corpo rodando, um giro sem escolha, talvez vinte e poucos anos que rodavam, rosto coberto, bra\u00e7os fr\u00e1geis, ar de quem existe sem existir, marcas de tudo, at\u00e9 de um filme seco. De um n\u00e3o caminho de volta. J. n\u00e3o sabia o que fazer, se flutuava, se ajoelhava ou se abra\u00e7ava aquele giro de osso, carne e exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parece-me que o corpo buscava alguma sobra, que seja no lixo, por vezes no lixo ou sempre nas sobras do lixo, seja no mundo, numa passagem entre uma rua e outra, estamos sempre buscando algo sem sentido para compensar um abra\u00e7o negado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O corpo jovem estava ali buscando, numa garrafa vazia dentro do cont\u00eainer, o resto, as gotas de vermute esquecidas, e girava, cambaleava como uma dan\u00e7a no teatro nacional, tudo muito preciso e instintivo, sua presen\u00e7a mudava o ritmo de quem passava, parecia <em>slow motion<\/em>, a\u00e7\u00f5es com movimentos m\u00ednimos esquartejavam quem buscasse uma resposta do corpo, ou um entendimento, um julgamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que importa!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse corpo parecia invis\u00edvel, mas n\u00e3o era, e J. nem sabia qual era, mas sentiu vontade de sentar, observar e depois convidar para aquilo que esse corpo necessitava, e \u00e9 prov\u00e1vel que at\u00e9 J. soubesse do que aquele corpo necessitava, mas os carros e as sobras, os ru\u00eddos do in\u00edcio da manh\u00e3, n\u00e3o mais tinham import\u00e2ncia para o corpo, as pernas magras, os joelhos magros, a roupa maior que o corpo, uma identidade que nem se comunicava mais com o entorno, e J. passou, observou, ficou num inc\u00f4modo com a pr\u00f3pria exist\u00eancia, talvez comigo, que fico vendo o que n\u00e3o deveria, J. por vezes sabe que estou seguindo seus passos, mas sinto que um roteiro cinematogr\u00e1fico poderia salvar assim: Ext. Dia. Rua. E uma rubrica sobre o agora. Um agora sutil que desconecta as \u00e1rvores das ruas, e J. viu algo estranho e se assustou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. pode pensar que fico aqui sendo muito de nada, \u00e9 por ser nada de muito que reconfiguro os barulhos de fora!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O corpo rodava com mais intensidade, quase com viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tempo escorre pelos dedos e apaga amizades feitas de finais de ano, que distantes est\u00e3o os corpos dos outros corpos. Que distantes est\u00e3o os corpos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ah, porque tive receio de invadir aquele giro corporal buscando uma dose de qualquer coisa, uma trai\u00e7\u00e3o, uma constata\u00e7\u00e3o, uma verdade, um pacote de doces, e tudo vai se distanciando ainda mais e tanto que apavora, e desfigura mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. parece um corpo que encontra outro corpo que roda entre lixeiras, carros e p\u00e9talas que caem das \u00e1rvores, o vento e o c\u00e9u como testemunhas, uma sombra de si. J. parece sentir o desvio da vida naquele instante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Corta, corta, corta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Produ\u00e7\u00e3o, proteja a personagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Guarda-sol.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cadeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c1gua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Corta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Qual cena ser\u00e1 a pr\u00f3xima?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Corta, pensou J.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E um homem branco, desses masculinos heteros, joga uma garrafa contra a parede e vai, com furor, para cima da namorada, e ela, que ao tentar se livrar de um carinho perigoso, tenta atravessar a rua e&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ao lado, carros, panos nas janelas esperando o sol secar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dor, gritos, buzinas, muitos telefones e suas c\u00e2meras famintas, o corpo rodando continuou rodando, e J., sem entender aquele in\u00edcio de dia, n\u00e3o conseguiu raciocinar, caminhou alguns metros e ficou im\u00f3vel&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seguida, cinco homens, desses masculinos, bem masculinos, que s\u00e3o gays, caminhando com um certo riso, tr\u00eas homens brancos e dois pretos, de bigodes, os pretos, os brancos tinham cara de jogador de t\u00eanis. Pareciam turistas, estavam com esse aspecto de perda de tempo e destino programado. Todos estavam de bermudas. Homens adoram mostrar as pernas, e no ver\u00e3o \u00e9 um selo. \u00c9, \u00e9 assim mesmo, um deles usava uma camiseta: coma-me, ou eu te devoro. Ele era o mais festivo do grupo. Imagine.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00e1 estava J. atravessando seu lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo espa\u00e7o invis\u00edvel dos olhos que observam tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 t\u00e3o m\u00e1gico observar ao redor, entre e al\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enfim, J. observava a Rambla como se buscasse uma foto que fizesse o mundo se mostrar mais gentil. Que incr\u00edvel, sempre existe alguma p\u00e9tala caindo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ca\u00edram v\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pombas voavam ao menor sinal de comida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Adolescentes faziam explora\u00e7\u00f5es escolares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma mulher preta de cabelo avermelhado falava ao telefone com a convic\u00e7\u00e3o de encontrar o amor do mundo no pr\u00f3ximo fim de tarde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. apressou o passo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os corpos girando ainda giravam na sua mente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, do nada, uma m\u00e3o segurou a m\u00e3o de J.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E arrastou seu corpo sem defesa para uma esquina cheia de lixo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rua vazia, at\u00e9 de vida!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. tentou gritar e logo a m\u00e3o tampou sua boca, derrubou seu corpo, e um sil\u00eancio se estabeleceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns minutos que pareceram treze anos e vinte e cinco dias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A m\u00e3o na sua boca calava qualquer sinal de esperan\u00e7a de J.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os olhos de J. estavam em completo desespero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ofegante, pensou que se tratava de um roubo, mas n\u00e3o conseguia se mover, o corpo agressor limitava tudo, at\u00e9 sua respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os lugares mais desertos do mundo est\u00e3o vivos. Algu\u00e9m precisa me socorrer, pensou J.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rosas nascem em vulc\u00f5es adormecidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Humanas s\u00e3o apagadas no asfalto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olhares ociosos permitem invas\u00f5es todos os dias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguma exist\u00eancia respira em frangalhos numa UTI perto de um smartphone pornogr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Me deixe sair \u2014 disse J., quase sem f\u00f4lego!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 N\u00e3o ouse reagir! \u2014 disse o corpo sufocador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, apertando o rosto de J. sobre o asfalto, disse:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Existir \u00e9 o prato mais caro do dia. Seres n\u00e3o masculinos mortos por querer existir como n\u00e3o masculinos. Lagos em luto secam, comunidades tamb\u00e9m. Os dominantes est\u00e3o quebrando sonhos, for\u00e7ando enforcamentos, diluindo seus dias em Gim-T\u00f4nica. E voc\u00ea, vota em quem, na letra ou na metralhadora?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o sou J., quando penso que seja necess\u00e1rio, por vezes s\u00f3 observo mesmo. E ali existia algo para ser resolvido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. vive, e vive mais quando observa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. tentava implorar e da sua boca sa\u00eda um som quase como poooooorrrahhfaaaafaaavoooouuuuurrrrr.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. diante do momento pensou nos sons das festas que atravessam as vizinhan\u00e7as. J. sempre dorme depois das tr\u00eas da manh\u00e3. Tem um bar ao lado da casa de J., que foi ao local apenas uma vez e a gar\u00e7onete cobrou por uma cerveja como se cobrasse a invas\u00e3o de J. ao entrar ali, e J. anda muito sens\u00edvel. Tamb\u00e9m, \u00e9 compreens\u00edvel. J. mudou tudo, at\u00e9 os vegetais em que acreditava serem saud\u00e1veis, estava num momento t\u00e3o em paz alguns dias atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. talvez sinta falta do ar, mas sente falta das pessoas que riem e dividem do\u00e7ura, risos e algum tipo de desconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pista do bar, que fica na janela de J., est\u00e1 repleta de convidados exploradores da mis\u00e9ria, s\u00e3o refer\u00eancia para os aplausos dos explorados que desejam ser bem-sucedidos. M\u00fasica ao vivo em bares perto da sua casa pode ser esclarecedora, para um novo rumo da vida, acredite. \u00c9 inven\u00e7\u00e3o, s\u00e3o jovens que cantam e atravessam tudo antes da enchente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. continuava sob o corpo que o raptou, ningu\u00e9m passava, n\u00e3o existia mais sa\u00edda, possibilidade de amor, a cena final parecia ser uma quest\u00e3o de tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a voz que sa\u00eda do corpo disse, babando a orelha e atravessando os t\u00edmpanos de J.:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Pessoas andam implorando pelo fim do dia. Animais ficam observando o pre\u00e7o da terapia. Os filmes reproduzem o desespero da desesperan\u00e7a sem segredos. Artistas se estampam diante das redes em busca de p\u00e3o e diamantes. Olhem para mim, mandem jobs, eles escrevem. Est\u00e3o famintos e abobalhados. Alguns rodando feridos, outros tentando morder o pr\u00f3prio destino sem rabo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 O que voc\u00ea quer? Me deixe ir, n\u00e3o fiz nada! \u2014 disse J. em estado de choque.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A voz continuou:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;A crian\u00e7a que importa \u00e9, talvez, a que vive sob seu controle. Outras, o que \u00e9 prov\u00e1vel, apenas n\u00e3o s\u00e3o suas crian\u00e7as. Todos os povos est\u00e3o no mesmo barco incendiado. Os teatros viraram um grito que n\u00e3o ultrapassa o palco. O sal\u00e1rio n\u00e3o paga as dores da cena cotidiana, os personagens fugiram para bem longe, a dona de casa dormiu antes da novela come\u00e7ar. Quem explodiu a areia da praia, fez o buraco para a \u00e1gua do mar escorrer e secar? Quem vai incendiar meu cora\u00e7\u00e3o? Quem?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E J., no meio dos exerc\u00edcios no gin\u00e1sio, lembrou do corpo que rodava em busca do simples, talvez um banho, um prato de comida, uma n\u00e3o desist\u00eancia das suas pernas magras. E a namorada atropelada por mais um caso de horror do homem que adora o corpo feminino como propriedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que ser\u00e1 que J. sobreviveu e como saiu desse atropelo desconhecido?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Desaparece daqui, desapare\u00e7a!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A voz enrolava os sentidos de J., que rapidamente pulou o muro do medo e correu, e escutou ainda no fim:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Desapare\u00e7a!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E novamente a m\u00e3o arrastou o corpo de J.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora segurando uma garrafa quebrada ao lado do gato de Botero, e o pesco\u00e7o de J. estava pronto para ser degolado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A voz disse:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;O pensador branco quase zumbi devora seu bife quase zumbi, o tempo envelhece os passos daquele corredor estampado de reconhecimento.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sequ\u00eancias de exerc\u00edcios para manter o corpo de J. ativado, a cabe\u00e7a de J. n\u00e3o para, vira tudo, at\u00e9 cupim dele mesma, que barbaridade, e, no meio disso, pessoas gritam gol.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gol!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gol!!!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os carros s\u00e3o diversos e muitos, algu\u00e9m sente mais que fome e loucura neste momento. O que posso fazer se o calor tomou conta da cidade? Eu narro meu filme, todos os dias tenho um filme para narrar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E os afogamentos, os outros abafados, o desconforto inunda ideias de sobreviv\u00eancia. O que \u00e9 aquela pessoa estampada como uma manchete escolhida? Escolhida para qu\u00ea? Para viver, para brilhar numa esteira feita de qu\u00ea? Algu\u00e9m deseja ser voc\u00ea para n\u00e3o morrer. Armas, intoler\u00e2ncia, perversidades ou vaidades, vale ser importante sem ser importante? O olhar perdido na floresta. O riso inventado anuncia que amanh\u00e3 pode ser l\u00e1grimas depois da saliva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O c\u00e9u vai desabar numa gota \u00fanica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. saiu do gin\u00e1sio, aquelas complica\u00e7\u00f5es de aparelhos, o tempo na bicicleta n\u00e3o estava resolvendo tantos fantasmas ao mesmo tempo querendo espa\u00e7o, era muito influencer para poucos seguidores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. entrou numa loja paquistanesa e ficou ali, como se perguntasse o que queria, al\u00e9m de voltar para casa. Ouviu nuvens passando e repetindo algum mantra n\u00e3o acolhedor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma mulher com uma carta aparece fritando sob o sol:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;N\u00e3o somos, n\u00e3o somos, n\u00e3o somos!&#8221; \u2014 dizia ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Um \u00fanico pingo maior que todos os planetas vai cair e ponto.&#8221; \u2014 declamava ela, quase como se falasse para uma plateia de feira p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Eu sei quando o pre\u00e7o do quilo da berinjela vai aumentar.&#8221; \u2014 da\u00ed ela apelou com essa frase.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 para n\u00e3o ficarmos na trag\u00e9dia anunciada:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O chamado pode ser para a leitura, a informa\u00e7\u00e3o de que voc\u00ea n\u00e3o faz nenhuma diferen\u00e7a, vivo, morto ou desaparecido no meio do pingo que caiu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua f\u00e9 \u00e9 o que menos importa quando o dinheiro \u00e9 necess\u00e1rio para salvar Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E Deus est\u00e1 num estado de cansa\u00e7o absurdo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu Deus, Deus t\u00e1 esgotado!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fechou at\u00e9 sua conta no banco, a conta dele, Deus n\u00e3o quer mais conta corrente, nem like, nem vela, nem promessa, Deus quer f\u00e9rias sab\u00e1ticas de mil anos e dois dias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deus cancelou cart\u00e3o de cr\u00e9dito, d\u00e9bito, Deus foi surfar nas nuvens que ele construiu em Urano. Preciado comprou um apartamento por l\u00e1 tamb\u00e9m e t\u00e1 bem contente, vizinho de Deus, e n\u00e3o tem do que reclamar, em Urano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deus falou dia desses:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Paul, eu te amo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Eu tamb\u00e9m te amo, Paul B. Preciado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. parou os exerc\u00edcios, ficou observando aquelas pessoas no gin\u00e1sio, olhos tristes, mas desejosos de algum sentido. O universo tem gerentes e estradas, e algumas vezes elas estar\u00e3o interditadas. Estradas n\u00e3o s\u00e3o confusas, elas sabem onde come\u00e7am e terminam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escreva uma carta com letras, um poema que denomine vermelho nas tintas, pensou J. Atravessou rapidamente os espa\u00e7os entre aparelhos e saiu do gin\u00e1sio, viu pessoas, algumas certas para onde iam, outras nem pensavam, algumas com uma ideia de sabonetes, mas as p\u00e9talas da primavera estavam sobre o ch\u00e3o, constatou, e o tr\u00e2nsito&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>&nbsp;<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>Determinava quem estava atrasado para algum encontro, entrega, que vel\u00f3rio que nada, J. pensou em gargalhar pela sua desesperan\u00e7a, mas colocou seus fones de ouvido, escolheu uma m\u00fasica e atravessou a Rambla.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algu\u00e9m observava seus passos, ela observava J., que n\u00e3o a percebia, existia nessa vontade de voltar para casa um estado de sangramentos, n\u00e3o s\u00e3o tapetes vermelhos, lembrou da amiga trans que mora por ali, pensou em chamar, pedir ajuda, o dia estava rodando numa velocidade que causava \u00e2nsia de v\u00f4mito, mas adiantou o passo, buscou convic\u00e7\u00e3o, o t\u00eanis velho mostrava o ded\u00e3o querendo sair, anda, anda, n\u00e3o pare, pensava J&#8230; Estava em estado de desorienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E alguns sapatos nas vitrines esperam p\u00e9s, mas os sapatos que pisam proclamam desejos infinitos. J. pensou: nossa, quem, nesse momento, est\u00e1 em forma de prazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algu\u00e9m pensa em escrever tudo que sempre sonhou, \u00e9 um pesadelo olhar a feiura de como tudo foi constru\u00eddo no meio da multid\u00e3o mascarada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O controle tem sobrenome e determina quem pode sentar ao redor da mesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem pode ser assim, ovacionando todos os dias como se estivesse num est\u00e1dio, quem?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outros s\u00e3o menos que nada&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coturnos sem remorsos obedecem ordens que matam iguais. Mas algu\u00e9m veda os olhos do mundo, emudece o canto da igualdade, sugere na tortura um novo espet\u00e1culo para a obedi\u00eancia. E algum movimento te engana, sem nenhum pudor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. entrou numa loja de doces e p\u00e3es, comprou uma madalena, um croissant de chocolate, ficou na lua de comer ali ou levar para casa&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o corpo rodando na sua cabe\u00e7a, a m\u00e3o arrastando seu corpo para um cont\u00eainer de lixo, o atropelamento, a garrafa quebrada, o que falta acontecer? Sentiu um calafrio, percebeu um homem branco vindo na mesma dire\u00e7\u00e3o em que estava, seu corpo gelou no ver\u00e3o de quarenta graus&#8230; Pensou em gritar&#8230; O homem entrou na loja e J. saiu como se fosse uma coelha abandonada pelos chocolates da P\u00e1scoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. reconheceu um dramaturgo que passava com seu boy, um ator muito bem resolvido muscularmente, eles riam&#8230; de qu\u00ea, da cena teatral comunit\u00e1ria, ou da cidade e seus festivais?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. na rua segurava a madalena e o croissant de chocolate. O c\u00e9u continuava indeciso entre desabar ou apenas amea\u00e7ar. Algumas pessoas carregavam sacolas. Outras carregavam urg\u00eancias. Os carros passavam como se tivessem um destino. J. nem sempre acreditava nisso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao atravessar a rua, voltou a ver o corpo n\u00e3o definido. J. pensou, por um momento, em cantar em voz alta, tentar mudar o ritmo de tudo. Dois homens se beijavam em frente a uma loja chinesa, que dia festivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O corpo continuava ali.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rodando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como se procurasse alguma sobra entre os restos do dia. Sobras que nunca sobram. Como se procurasse alguma coisa que n\u00e3o estava no lixo nem no mundo. O mundo n\u00e3o tem voz?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As pernas do corpo continuavam magras depois de uma hora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os joelhos continuavam magros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A roupa continuava maior que o corpo, a cabe\u00e7a, entre cabelo e busca, continuava sem identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a cidade continuava maior que todos eles, falo dos corpos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. pensou em poesia, mas o que isso podia causar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensou em fotografia, os olhos est\u00e3o o tempo todo revelando casos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensou em escrever, onde, que letra usar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensou em convid\u00e1-lo para sentar, se convida corpo para sentar no meio de uma cidade t\u00e3o feliz?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas havia coisas que n\u00e3o precisavam de met\u00e1foras, precisavam de cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez, por um momento, aquele corpo n\u00e3o necessitasse de carinho, apenas de um prato que saciasse sua fome, seja ela qual fosse&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez necessitasse apenas de um banho, banhos s\u00e3o sagrados, eu penso que sim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. pensou em um abra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas teve receio do n\u00e3o, do tempo, da n\u00e3o certeza que liberta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O corpo necessitava de um rel\u00f3gio que indicasse os dedos do mundo, talvez de uma cama amorosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De algu\u00e9m que o chamasse pelo nome. Que aquele corpo pudesse existir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O corpo seguiu rodando, rodando, como se buscasse um retrovisor que indicasse uma morada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. observou por mais alguns segundos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois continuou o caminho para casa. O que poderia existir al\u00e9m disso, do caminho de casa?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao virar a esquina, J. viu sua rua&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primavera deixava p\u00e9talas sobre o ch\u00e3o e J. passava sem cor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cidade deixava outras coisas. Algo como&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O telefone de J. tocou, era a antiga vizinha&#8230; J., com entusiasmo, mas sem saber o que falar, disse:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Ol\u00e1&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dem\u00e0 us n'explicar\u00e9 m\u00e9s...<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><p>Amanh\u00e3 eu conto mais..<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;JFC &#8211; BARCELONA &#8211; 2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os lugares mais desertos do mundo est\u00e3o vivos.<br \/>\nO desconforto inunda ideias de sobreviv\u00eancia.<br \/>\nCorpos atravessam seu cotidiano diariamente. Observe-os. Corpos vivem, ainda.<br \/>\nA primavera causa alergia, causa mesmo, pergunte a quem voc\u00ea abra\u00e7a.<br \/>\nComo se procurasse alguma sobra entre os restos do dia.<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":4005,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[30],"tags":[],"class_list":["post-4003","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-barcelona-ficcion"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/ca\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4003","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/ca\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/ca\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/ca\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/ca\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4003"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/ca\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4003\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4015,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/ca\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4003\/revisions\/4015"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/ca\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4005"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/ca\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4003"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/ca\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4003"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaofabiocabral.com\/ca\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4003"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}